O FMI alerta: a tokenização pode disparar os riscos
O FMI avisa que a ascensão da tokenização — imóveis, obrigações e ações na blockchain — pode tornar os mercados financeiros mais rápidos, mas também mais frágeis. Para os investidores europeus, ainda a habituar-se ao MiCA, é um sinal a levar a sério.
O Fundo Monetário Internacional avisa, num novo relatório, que a tokenização de ativos financeiros pode tornar os mercados mais rápidos e eficientes, mas retira ao mesmo tempo as almofadas que normalmente travam os choques. Segundo Tobias Adrian, economista do FMI, a tokenização faz desaparecer as «frictions» que dão ao sistema financeiro tradicional tempo para reagir a uma crise — com o risco de que erros, choques de mercado ou vendas automatizadas em massa se propaguem mais depressa do que os supervisores conseguem intervir.
Em resumo FMI: a tokenização pode espalhar choques financeiros mais depressa do que as instituições conseguem reagir «As frictions desaparecem, mas as almofadas também» — liquidações automáticas e chamadas de margem podem escalar sem intervenção humana Risco de concentração: a atividade concentra-se em poucas plataformas grandes, o que transforma falhas de governação em risco sistémico As stablecoins são um elo frágil enquanto meio de liquidação dentro de sistemas tokenizados A tokenização transfronteiriça complica a supervisão e a clareza jurídica sobre a propriedade O FMI apela a legislação mais clara e a coordenação internacional
O que o FMI avisa exatamente
Em duas publicações recentes — uma nota de abril de 2026 e um relatório de seguimento a 1 de julho de 2026 — o FMI mapeia os riscos da «tokenized finance». A tokenização, ou seja, a representação digital em blockchain de ativos reais como imóveis, obrigações ou ações, ganha terreno depressa: gestoras de ativos como a BlackRock já colocaram milhares de milhões em fundos tokenizados na Ethereum. Mas, para o FMI, faltam neste momento os enquadramentos jurídicos e de supervisão capazes de absorver os riscos desse ritmo. Quando os pedidos de liquidez, as chamadas de margem e as vagas de venda acontecem em tempo real, uma avaria pode alastrar mais depressa do que supervisores ou instituições conseguem corrigir.
Risco de concentração e risco das stablecoins
Uma segunda preocupação é a concentração: a tokenização puxa a atividade para um número reduzido de grandes plataformas, pelo que uma falha técnica ou de governação numa delas se torna de imediato um problema sistémico. O FMI aponta ainda o papel das stablecoins como meio de liquidação dentro de sistemas tokenizados — a sua fiabilidade depende de reservas e de mecanismos de resgate que podem revelar-se frágeis sob stress, com risco de corridas aos depósitos em versão digital.
O que isto significa para a Europa
Para quem investe na Europa e para o mercado abrangido pelo MiCA, o sinal é relevante. Desde o prazo do MiCA de 1 de julho, já são 244 as empresas com licença europeia de cripto, o que traz formalmente o setor para dentro de um quadro de supervisão. Mas a tokenização de ativos tradicionais — um mercado em crescimento onde também entram operadores europeus — fica em grande parte fora desse quadro. O FMI defende que se clarifique quem é o proprietário de um ativo tokenizado, se a liquidação é juridicamente vinculativa e que jurisdição se aplica assim que os ativos atravessam fronteiras sem esforço. Sem essa clareza, diz Adrian, a tokenização continuará «fragmentada e marginal».
Cauteloso, mas sem rejeitar
O FMI não se opõe à tokenização em si — o relatório reconhece as vantagens em velocidade e eficiência — mas avisa que os reguladores estão atrasados face ao desenvolvimento tecnológico. Se estás a ponderar entrar em produtos tokenizados, vale a pena pesares que este mercado ainda não tem um enquadramento jurídico maduro, nem sequer dentro da UE.
Este aviso surge pouco depois da notícia de que a BlackRock alarga a sua atividade de tokenização na Ethereum e encaixa na nossa explicação anterior sobre os real-world assets tokenizados.
A tokenização promete mercados financeiros mais rápidos e mais baratos, mas o FMI deixa claro que velocidade sem almofadas é uma faca de dois gumes. Para investidores e supervisores na Europa, continua a ser essencial que a infraestrutura jurídica acompanhe o ritmo da tecnologia, antes que a tokenização se torne uma peça estrutural do mercado.
Fontes: IMF (1 de julho de 2026). Última verificação: 7 de julho de 2026.
